Desafio escrita - Janeiro - Take me to the rooftop
Hey, ya!
No final do ano passado eu propus um desafio de escrita no instagram, coloquei vários temas aleatórios, um por mês, e defini que no último sábado de cada mês seria a postagem dos textos. O tema de janeiro era: inspirado em música. E depois de muito pensar eu escolhi listen before i go da Billie Eilish. Segue abaixo o texto e depois uma pequena explicação.
Take me to the rooftop
(Me leve para o telhado)
Tenho esse sonho recorrente, em que estou subindo escadas. Dez degraus, curva, dez degraus, próximo andar, dez degraus, curva… Deve ser um prédio bem alto.
Sempre um pouco antes de acordar, as cores começam a desbotar, então eu hesito, esfrego os olhos, e quanto mais eu esfrego mais a minha visão perde a cor, e logo tudo começa a embaçar - é nesse ponto que meu coração acelera, e eu volto a subir as escadas, dessa vez correndo. Em cada novo degrau, eu vejo meu pé borbulhando até se transformar em outro pé, e então isso passa para as minhas pernas. Engasgo de pânico, começo a me impulsionar com os braços pelo corrimão, tentando controlar a parte inferior do meu corpo que já não é minha. Sinto meu abdômen mudar, meu peito, meu pescoço…
E acordo suada e sem ar.
Abro os olhos, eu enxergo meu quarto escuro, fico um tanto quanto aliviada de ver que o preto está em um tom forte e vivo. Abro a janela e vejo o céu azul. Eu estou bem. Suspiro, eu estou bem, repito para mim mesma.
Dez degraus, curva, dez degraus, curva, dez degraus, curva, dez degraus, curva, dez degraus, curva, dez degraus, curva. De repente reconheço onde estou, é o sonho, e de imediato eu percebo que nunca cheguei tão longe.
Eu quero o topo, eu posso chegar lá, dez degraus, curva, dez degraus, curva. Fazer o que no topo? Dez degraus, curva, dez degraus, curva. Não sei, mas eu quero o topo, não é por isso que eu subo todas as noite? Dez degraus, opa… Olho para trás e depois para frente, o próximo lance de escadas já está ficando baço. Começo a correr, sem contar mais os degraus, cobrindo a curva com uma só passada. Cima, cima, eu quero ver se o céu ainda está azul, talvez, se ele ainda estiver toda essa agonia vá embora. Tropeço e fico encarando meu próprio pé. Ou o que devia ser meu próprio pé.
Desespero.
Acordo.
Uma fresta de luz entra pela janela, e a escuridão do meu quarto não parece tão profunda. É quase como uma cinza.
Eu não deveria querer subir. Os tons nunca ficavam confusos nos andares mais baixos. Eu devia tentar sair do prédio. Seria melhor. Eu poderia encontrar meus amigos lá fora. Mas não consigo voltar atrás, não consigo parar de subir as escadas. Olho para baixo. Meus pés já não são meus, deve ser por isso que não consigo fazer o que quero. Dez degraus, curva, dez degraus, curva, dez degraus. É estranho, mas meu corpo não parece ser só meu. Não faz sentido, isso é absurdo!
Não é?
Tudo começa a ficar embaçado, escuro, pesado. Quando fiquei tão pesada? Não posso ter engordado tanto assim do nada.
Abro os olhos, estou deitada, minhas pernas doem muito. Doem como se eu tivesse subido quarenta andares de escada.
Mas eu não subi.
Eu subi?
O céu está azul.
Estou no telhado, não sei como cheguei lá. Não quero voltar atrás, não quero voltar para as escadas, tenho medo delas. Vagueio pelo topo do prédio, vagueio até perder a noção de tempo. O céu continua azul, meu corpo parece meu, quando é que tudo vai ficar confuso? Quando é que eu vou acordar?
De repente tenho a sensação de que preciso pular para acordar. Chego perto do parapeito e sinto um medo tão real, que hesito. Okay, essa sensação eu conheço, logo eu vou acordar. Até porque nunca ninguém morre em sonhos. Tento subir no parapeito, minhas pernas não respondem. Elas devem ter mudado… Espero acordar. Vou acordar a qualquer momento. Estou em pânico, mal consigo respirar.
E por que eu não acordo?
...
Então, esse conto tem como título o primeiro verso da música da Billie. É uma música triste, que me remete a depressão, e gosto muito da ideia de trabalhar o tema saúde mental. Durante o conto eu tinha em mente assinalar um pouco do que é a dissociação (comum em casos de depressão, ansiedade, estresse ou trauma).
Espero que você tenha gostado, sinta-se a vontade para entrar no desafio!
E até o próximo encontro com cheiro de maresia!
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