O que o mar revolto traz: poesia

Ressaca. 

Por si só é uma  palavra pesada, daquelas que cada sílaba tem um gosto ruim. A ressaca produz ondas tão altas que quando se quebram, cobrem o farol.

Não dá para ver a luz quando o mar cospe sal para tudo que é canto... 

E não tem muito o que fazer, não existe um Engov marítimo, né?! Tem que esperar passar (risos de pânico).

Quando eu tenho ressacas na minha alma, eu choro em palavras. E quando o choro é muito amargo, a prosa não o sustenta, então a poesia vem ao resgate... Esses dois poemas abaixo vieram de situações parecidas, e acho que se comunicam (já adianto que poesia nunca foi meu forte).





Um poema escarlate


Hemingway temia que as palavras perdessem o gume,

então as cortava. 

Eu não as corto

(mas devia),

tampouco me corto

(mas queria).

Será que é por isso que não me chamam de escritora?

Deve ser por isso que dizem que estou bem.

É só falta do que fazer.

Se eu tivesse marcas,

Ou se minha obra fosse mais editada...

Melhor, se a minha borda... Ah, enfim.


As palavras sobram,

Eu não as digo.

Não posso dizer. 

Ninguém quer ouvir, que bobagem, é...

É falta do que fazer.


Então as guardo. 

Guardo todas,

As suas, as minhas, até as de outras.

Cada excesso e redundância e incoerência e ponta solta.

Pontas tão afiadas de bem guardadas.


Re-ta-lha-ção.


E nenhuma gota de sangue há no chão.

Nenhuma marca em minha pele.

Nada.

Por fora ou por dentro, nada.

Meia dúzia de palavras pingadas.

E não as corto. Como poderia, se por elas sou cortada?


Sem título


Eu vou ser um eco

Das vozes de poetas mortos

(corpos)

Da genialidade de escritores loucos

(ocos)

Palavras de dor

(or)

De amor

(or)

De horror

Oh!

Porque a minha vida

(ida)

Não pode ser entendida

(ida)

Sozinha. Esmaecida.

Preciso que eles venham. Preciso ir.

Ida!

Partida na partida, 

Caminhando em traços de tinta,

E eu pingo em cada linha,

(linha)

Eu estanco em cada rima.

(linha)

Eu morro na escrita minha,

Linha a linha...

Eu agonizo.

Riso.

Eu choro.

(oro)

Ora aqui, ora ali.

Li!


E resfólego na literatura alheia.


Leia.



O farol continua em pé e no mesmo lugar, à espera que o mar se torne calmo de novo. Porque, infalivelmente, uma hora a calmaria virá.

Até uma próxima, marinheiro perdido!


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